Quais as dimensões da intolerância religiosa no Brasil?

Texto do Mestre Uberto Gama apresentado ao curso superior de Teologia da UniCesumar - Centro Universitário Cesumar



O nosso Brasil é um país imenso e é um grande mosaico de expressões religiosas das mais variadas. Isso vem desde o cristianismo católico inicial, quando as diversas nações europeias invadiram nossa terra, impondo no curso da história uma diversificação imensa de vertentes cristãs e, posteriormente, forçando a ampliação dos cultos afrobrasileiros, cujas experiências, crenças e tradições foram trazidas pelos escravos vindos da África. Ainda, misturadas à religião indígena local, se desenvolveram e se ramificaram enormemente, preenchendo um espaço frustrado de uma fé imposta.

Tudo isso faz parte da nossa história e da nossa cultura, das nossas crenças trazidas pelos europeus misturadas com as crenças dos nativos originais deste país, e até mesmo à invasão de outras seitas e crenças esotéricas. Aceitemos isso ou não, é um fato!

Com todo respeito, do meu ponto de vista, nosso país ainda não está preparado nem mesmo para uma democracia política madura e sensata, e muito menos para uma religiosidade aberta, ecumênica e consciente. Um exemplo é quando conhecidos, de diversas concepções cristãs, se reúnem para um café e iniciam a acirrada discussão sobre a Bíblia e a competição de egos para ver quem é o melhor e quem tem mais conhecimento. Ora evangélicos ofendem católicos, ora católicos fazem o mesmo com evangélicos e, muitas vezes, ambos se reúnem para atacar o espiritismo e outras religiões e filosofias. Amizades são desfeitas pela imaturidade espiritual e pela prepotência de que “a nossa igreja é a melhor que a sua”. E por aí vai. As guerras foram construídas pela indústria armamentista e estimuladas pela intolerância de mentes fanáticas e desajustadas.

Senhores, pretendo mostrar que vemos diariamente o preconceito racial e religioso em nosso país, fruto da nossa pequena e insignificante consciência, e também da nossa completa inconsciência espiritual. Certa vez, Mahatma Gandhi, o grande expoente, advogado e filósofo hindu, disse ao almirante Louis Mountbatten, oficial superior da Marinha Real Britânica: “Almirante, todos somos crianças aos olhos de Deus”.

No Brasil, a Constituição Federal prevê que a Igreja e o Estado não se misturam, afirmando que o Estado é laico. Mas ainda hoje, pasmem (!), apesar da mudança de algumas posturas e da melhora, mesmo que pequena, da consciência social, encontramos ainda em nossos tribunais, afixada no alto, acima da cabeça de alguns magistrados, a cruz cristã afirmando a fé católica! Ora, isso não é correto! Afirmamos pela lei uma coisa, mas demonstramos outra.

(...) Quando, pessoalmente, eu ministro alguma palestra sobre hinduísmo, budismo e Filosofia Vidya, reencarnação e ressurreição, Karma e Dharma, alguns cristãos se afastam e me olham com olhos de condenação ou com olhos de comiseração e piedade. Querem me fazer sentir culpado por não declarar o mesmo credo que eles. Porém, em nenhum momento faço o mesmo com eles. Ao contrário, tento me aproximar, discutir sobre as passagens do evangelho cristão, tento ser amigável e debater com amadurecimento. Fiz Teologia exatamente para compreender melhor o pensamento do cristão, entender corretamente a história do cristianismo e tentar perceber por que há tanta discórdia. Fui homenageado com o título de Ministro da Igreja da Vida Universal, nos Estados Unidos. Mas, antes disto, fui consagrado Brahma Rishi e Yoga Guru na Índia, em 1994, pelo Vishwa Unnyayan Samsad (World Development Parliament).

(...) Hoje, a nossa legislação proíbe a intolerância religiosa, mas somente depois de ver o exemplo de outras grandes nações a respeito do tema. Essa falta de habilidade, consciência e condescendência em reconhecer e respeitar as diferentes crenças e religiões é que produz a desarmonia e a falta de amor entre as pessoas aqui no Brasil e também em qualquer outro país no mundo. Não foi isso que Jesus, o Cristo, ensinou. Mas, é assim que as pessoas agem. Vemos a intransigência e a maldade humanas sendo vigorosas e bárbaras, tal como na Idade Média, com a incompreensão de outras crenças, seitas ou religiões em solo brasileiro. Falta-nos apenas a pena, o pergaminho, a fogueira e a inquisição dos sacerdotes hipócritas que não toleravam sob hipótese alguma quem não aceitasse Jesus como senhor e único salvador. Isso é um disparate total! Não foi isso que Jesus veio ensinar. Ele pregou “amar uns aos outros”. E amar significa também tolerar, condescender e consentir que cada um trilhe seu próprio caminho, tenha suas próprias experiências e vivências, mas dentro do amor e da verdade.

(...) Assim, apesar dos esforços da ONU e de outros organismos internacionais promotores da paz, a raiz da intolerância religiosa, infelizmente, continua presente em diversas áreas da sociedade e lares brasileiros. Continua presente no meio das religiões que causam a discórdia e semeiam o mal.

(...) Nós, como teólogos e gestores espirituais, devemos nos empenhar para elucidar e iluminar a todas as mentes humanas para conduzirmos todas as pessoas com ética, respeito, fraternidade e amor. Somente dessa forma poderemos eliminar todos os problemas humanos e sociais, seguindo em direção ao Absoluto Onipotente. Essa é a meta. No final de nossas vidas, nada de material ou científico importará; no final de nossas vidas, não importará se somos católicos, protestantes, crentes, batistas, budistas, hindus ou muçulmanos. A única coisa que valerá é o bem que tivermos feito uns para os outros com os instrumentos que tivemos em nossas mãos.

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